Duarte Gomes voltou a colocar a arbitragem portuguesa no centro da atualidade. O antigo árbitro internacional, que deixou recentemente as funções de diretor técnico nacional da arbitragem na Federação Portuguesa de Futebol, decidiu quebrar o silêncio e falar publicamente sobre as razões que estiveram na origem da sua saída.
As declarações levantam questões sobre o funcionamento interno da arbitragem e sobre alegadas irregularidades que Duarte Gomes afirma ter identificado durante o período em que exerceu funções na estrutura federativa. As alegações devem, contudo, ser tratadas como tal: afirmações do antigo árbitro que carecem de apuramento e contraditório, e não como irregularidades já demonstradas.
Uma saída que levantou perguntas
Duarte Gomes é um dos rostos mais conhecidos da arbitragem portuguesa.
Depois de uma longa carreira nos relvados, tornou-se comentador e analista de arbitragem, antes de assumir responsabilidades na estrutura da Federação Portuguesa de Futebol.
A sua passagem pela direção técnica colocou-o numa posição privilegiada para acompanhar os processos de formação, avaliação e funcionamento dos árbitros portugueses.
Foi precisamente por isso que a sua saída despertou atenção.
Agora, ao decidir explicar publicamente parte do que aconteceu, Duarte Gomes abre uma discussão que ultrapassa a sua situação pessoal.
Está em causa a confiança no sistema que decide quem arbitra, como os árbitros são avaliados e de que forma são tomadas decisões numa das áreas mais escrutinadas do futebol português.
Suspeitas precisam de respostas
O futebol português conhece bem as polémicas relacionadas com arbitragem.
Praticamente todas as jornadas produzem discussões sobre penáltis, cartões, fora de jogo ou decisões do VAR.
Mas o assunto levantado por Duarte Gomes é diferente.
Não se trata de discutir se um árbitro tomou a decisão correta durante um Benfica–Sporting ou um FC Porto–Braga.
Trata-se de perceber se existem problemas no próprio funcionamento da estrutura responsável pela arbitragem.
E quando alguém que ocupou um cargo de responsabilidade nessa estrutura apresenta dúvidas ou denúncias, estas merecem ser esclarecidas.
Isso não significa assumir que as acusações são verdadeiras.
Significa precisamente o contrário: permitir que os factos sejam apurados e que todas as partes envolvidas possam responder.
A FPF terá de esclarecer
A Federação Portuguesa de Futebol terá agora um papel importante.
Se as questões levantadas pelo antigo diretor técnico não correspondem à realidade ou resultam de divergências internas, a Federação terá oportunidade de explicar os procedimentos utilizados e apresentar a sua versão dos acontecimentos.
Se existirem situações que justifiquem uma investigação interna ou externa, deverão igualmente ser esclarecidas.
A pior resposta seria deixar as suspeitas crescerem sem explicação.
A arbitragem vive essencialmente de confiança.
Um adepto pode discordar de uma decisão. Um clube pode considerar-se prejudicado. Um treinador pode protestar.
Mas todos precisam de acreditar que o sistema que escolhe, forma e avalia os árbitros funciona segundo regras transparentes e iguais para todos.
Um futebol que precisa de transparência
Portugal exporta jogadores, treinadores e árbitros para algumas das maiores competições do mundo.
A qualidade do futebol português é reconhecida internacionalmente.
Mas a discussão permanente em torno da arbitragem continua a prejudicar a imagem das competições nacionais.
Por isso, as declarações de Duarte Gomes não deveriam transformar-se apenas em mais uma guerra entre protagonistas do futebol.
Podem ser uma oportunidade para esclarecer procedimentos, aumentar a transparência e reforçar a confiança.