O Prémio António Champalimaud de Visão 2026 foi atribuído aos investigadores Botond Roska e José-Alain Sahel, responsáveis por mais de duas décadas de investigação que abriram novas possibilidades para devolver parcialmente a visão a pessoas cegas devido a doenças da retina.
A distinção, no valor de um milhão de euros, é atribuída pela Fundação Champalimaud, em Lisboa, e reconhece este ano os avanços científicos realizados pelos dois investigadores no desenvolvimento de terapias capazes de recuperar alguma função visual mesmo quando as células responsáveis por captar a luz já foram destruídas pela doença.
O trabalho já ultrapassou a fase das experiências em laboratório. As abordagens desenvolvidas foram testadas em ensaios clínicos com seres humanos e permitiram recuperar parcialmente a visão de alguns doentes.
Fazer a retina voltar a responder à luz
Uma das grandes inovações desenvolvidas por Roska e Sahel está ligada à optogenética, uma técnica que permite tornar determinadas células da retina sensíveis à luz.
Em várias doenças degenerativas, os fotorrecetores — células que normalmente captam a luz — deixam de funcionar ou são destruídos. No entanto, outras células da retina podem permanecer intactas.
A investigação procurou aproveitar precisamente essas células sobreviventes, modificando a sua capacidade de resposta à luz para que possam assumir parte da função perdida.
Os primeiros resultados foram demonstrados em modelos animais e, posteriormente, levados aos ensaios clínicos em seres humanos.
Em alguns dos casos estudados, pessoas cegas conseguiram voltar a realizar tarefas visuais, como localizar, agarrar ou contar objetos.
Não significa uma recuperação completa da visão nem uma cura universal da cegueira. Mas demonstra algo que durante muito tempo pareceu impossível: uma retina profundamente afetada pode, em determinadas circunstâncias, voltar a fornecer informação visual útil ao cérebro.
43 milhões de pessoas cegas em todo o mundo
A dimensão potencial deste avanço é enorme.
Segundo os dados apresentados pela Fundação Champalimaud, existem cerca de 43 milhões de pessoas cegas no mundo e outras 295 milhões vivem com deficiência visual. Muitas sofrem de doenças da retina ou de degenerescência macular.
Apesar dos enormes progressos da medicina, continuam a existir poucas soluções capazes de recuperar uma visão funcional quando esta já foi perdida devido a determinadas doenças hereditárias da retina ou à degenerescência macular associada à idade.
Foi precisamente essa barreira que Roska e Sahel começaram a ultrapassar.
Os dois cientistas desenvolveram as suas investigações individualmente e em colaboração, ligando descobertas fundamentais sobre o funcionamento da retina ao desenvolvimento de tratamentos destinados aos doentes.
Um prémio português com dimensão mundial
Há também uma história portuguesa por detrás desta notícia.
O Prémio António Champalimaud de Visão foi criado no âmbito da iniciativa internacional Vision 2020 – The Right to Sight, em colaboração com a Organização Mundial da Saúde e a Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira.
Todos os anos, a Fundação Champalimaud distingue projetos ou organizações com impacto significativo na investigação, prevenção ou tratamento da cegueira.
Nos anos pares, como 2026, o prémio é dedicado aos grandes avanços científicos relacionados com a visão e a sua recuperação. Nos anos ímpares, distingue sobretudo organizações que combatem a cegueira e a deficiência visual no terreno.
Com um milhão de euros, é uma das grandes distinções internacionais nesta área da medicina.
A partir de Lisboa, Portugal participa assim diretamente no reconhecimento e no financiamento de investigações capazes de mudar a vida de milhões de pessoas.
Quando Portugal ajuda a ciência a atravessar fronteiras
Durante a cerimónia de entrega do prémio, o Presidente da República destacou precisamente a importância de aproximar a investigação fundamental da prática clínica e classificou a Fundação Champalimaud como um espaço de referência mundial para investigadores e médicos.
É também essa dimensão que torna esta notícia particularmente relevante para Portugal.
O país nem sempre consegue competir com as maiores economias mundiais em investimento científico. Mas pode criar instituições, prémios e centros de investigação capazes de atrair talento internacional e participar nas grandes transformações da medicina.
O Prémio António Champalimaud mostra esse outro lado do país.
Um prémio criado em Portugal distingue dois cientistas que ajudaram pessoas cegas a recuperar parte da visão e financia a continuação de uma investigação que poderá beneficiar muitos outros doentes no futuro.
É uma história de ciência internacional.
Mas é também uma história de Portugal no mundo.